Quase duzentos e cinqüenta quilômetros de litoral, um tanto retilíneo, entre a entrada da Lagoa dos Patos e a foz do Arroio Chuí. Mais ao sul, o Uruguai. A mais extensa praia do mundo! E fria, a menos que seja pleno verão. Em algum lugar quase no extremo norte nessa solidão de areia e mar, tem-se o balneário Cassino, em Rio Grande. Único do mundo onde a avenida principal é perpendicular à costa.
Na primeira quadra de uma das transversais dessa avenida operava todas as noites, em janeiro e fevereiro dos anos 60, o Cinema Rangel. Cinema desses ao ar livre, sem poltronas vermelhas, nem bilheteria. A imagem era projetada na parede leste do Edifício Ibagé e ali, do outro lado da rua, se encontrava uma cabine de madeira - um cubículo de dimensões 3m (h) x 2m x 2m -, pintada de verde. Nela ficava o projetor, operado pelo Sr. Isnard, que além de trabalhar no cinema, era pedreiro e pintor.

Família Carrion na praia de Cassino, no município de Rio Grande.
A iniciativa de proporcionar experiências cinematográficas aos moradores e visitantes de Cassino foi do Sr. Rangel, que já tivera um cinema em ambiente fechado nas instalações do Hotel Atlântico, point do balneário na época. A área de exibição fora mais tarde substituída por um boliche e, não obstante, o homem passou a comandar o cinema ao ar livre, com ajuda da esposa e do filho.
A senhora fazia a coleta voluntária, uma sacolinha onde frequentadores do Rangel podiam depositar quantia que fosse, tudo a fim de manter o projeto funcionando. O público, na sua maioria famílias, levava cadeiras, esteiras e almofadas, e naquela rua não calçada, de chão de capim e areia, os espectadores se acomodavam para assistir a bons filmes, geralmente clássicos dos anos 50 e início dos 60.
O senhor, com sua voz um tanto fanhosa, que "castigava" a gramática e a boa diccção, anunciava então as películas a serem exibidas nos dias seguintes. Em certos dias, reclamava dos mal intencionados, que colocavam bilhetinhos com mensagens indecentes na sacola de coleta, aproveitando-se da escuridão do cinema e da boa fé da coletora. Acerca desses "recadinhos", Rangel sempre dizia que aquilo não o atingia, pois acreditava ter uma moral bem formada.
Cada filme não ficava mais de dois dias em cartaz. O cine Rangel era, em meados dos anos 60, o único do balneário, e assim foi até o início da década de 70, quando um cinema amplo, estilo de cidade grande, ocupando quase uma quadra, foi construído na mesma avenida, lá junto ao começo das areias da praia.

4 comentário(s):
Que legal... Lá deve ser lindo. (:
não demora. seu blog é muito lindo.
Fiquei a imaginar o ambiente.
Isso é descrição de qualidade: a que faz a gente imaginar a ponto de se inserir no ambiente.
Continuez, on attend.
P.S.: j'ai adoré le layout, c'est joli, mieux qu'avant.
cade o black and white?
obrigada por tudo ontem, querida!
Postar um comentário